Quando as luzes do ginásio se apagarem, você calça o tênis?

Madrugada fria. O relógio passa das 3h.

O som que se ouve é o motor de um ônibus de viagem desacelerando no pátio silencioso. De dentro dele, saem homens de quase dois metros de altura. Ombros caídos, pernas travadas por horas de confinamento em poltronas apertadas, rostos marcados pelo fuso horário e pelo cansaço extremo de uma longa viagem internacional.

Eles olham para a frente. O ginásio onde deveriam treinar está completamente às escuras. As portas estão trancadas com cadeado. Nenhum funcionário à vista. Nenhuma chave.

Para qualquer pessoa normal, o roteiro seria óbvio: voltar para o ônibus, fazer o check-in no hotel, tomar um banho quente e dormir. Afinal, a culpa não era deles. As condições eram desfavoráveis. Havia uma justificativa perfeita para o descanso. Mas o homem que liderava aquele grupo não aceitava desculpas como resposta.

Bernardinho olha para o asfalto áspero do estacionamento, iluminado apenas pelos postes amarelados da rua. Ele não hesita. Ele não reclama da organização. Ele apenas olha para o time e dá a ordem: “Amarrem os tênis. O treino vai ser aqui fora.”

Ali, no chão batido, com o corpo clamando por descanso e sob o olhar de incredulidade de alguns, a Seleção Brasileira Masculina de Vôlei começou a desenhar o seu destino. Não houve toque de bola refinado, não houve grandes cortadas. Houve suor, repetição de fundamentos e o som do impacto dos tênis contra o concreto.

Aquele corte de cena não era sobre técnica. Era sobre mentalidade.

O que o cinema da vida real nos ensina sobre liderança e o mundo corporativo?

  1. A ilusão do cenário ideal. No mercado, passamos a vida esperando a “quadra perfeita” para jogar: o orçamento ideal, a equipe dos sonhos, a economia estável, o software sem bugs. Spoiler: essa quadra quase nunca está aberta. Quem espera as condições perfeitas para performar entrega mediocridade.
  2. O líder define a atmosfera do caos. Quando o plano falha — e ele vai falhar — a equipe olha para o líder. Se o líder esbraveja, procura culpados e se vitimiza, o time desiste. Se o líder mantém os olhos na missão e encontra uma alternativa, o time calça o tênis e vai para o asfalto.
  3. O ouro é um subproduto do invisível. A medalha de ouro no topo do pódio é uma imagem linda para a posteridade. Mas ela é uma consequência direta daquela madrugada escura no estacionamento, onde ninguém estava aplaudindo, ninguém estava filmando e o chão machucava os joelhos.

O “asfalto” bate à nossa porta toda segunda-feira. É o cliente que desiste, a meta que muda, a entrega que atrasa, a infraestrutura que falha.

Quando as luzes do seu ginásio se apagarem, você vai procurar o conforto do hotel ou vai fazer a sua entrega acontecer no estacionamento?

O sucesso de elite não aceita desculpas. Calce o tênis.

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